• +351 919 621 097

Tejo: “Não digo que o rio seque, mas tenho muito medo”

Tejo: “Não digo que o rio seque, mas tenho muito medo”


A vista que aguarda quem espreita pelo miradouro de S. Bento, em Santarém, não é tranquilizadora. Lá em baixo, está o Tejo, ou o que resta dele, entre os inúmeros bancos de areia que quase não deixam espaço para a água, na base da antiga ponte de ferro, que liga a cidade a Almeirim. Mas, se a vista parece trágica para um visitante menos avisado, ela não assusta uma das funcionárias do café do miradouro que, de pescoço esticado, espreita a paisagem à sua frente e sentencia: “Hoje até é dos melhores dias. Tem estado como nunca o vi.”

A grande tragédia do Tejo pode ser que estas pequenas tragédias já não surpreendam alguém. Há muito que os problemas de caudais, assoreamentos e poluição fazem parte da vida do rio. Mas, este ano, até Arlindo Marques – conhecido como o “guardião do Tejo” e que em 2018 ganhou o Prémio Nacional do Ambiente – afirma que se está perante algo mais grave. “Eu não prevejo nada de bom. Ando aqui neste rio desde pequeno, vou fazer 54 anos, e praticamente venho aqui todos os dias. Conheço como era o rio, quando eu era pequeno, e isto tem vindo a piorar, mas este ano, para mim, foi o pior, porque no Inverno não passou água.”

Arlindo Marques fala em cima das pedras arredondadas que são o leito do Tejo, junto à localidade de Ortiga, em Mação. No ponto onde se encontra, apenas cerca de um quarto do leito do rio está ocupado por água. O maior rio da Península Ibérica não parece ali mais do que uma ribeira larga.

Não é que isto não tenha acontecido antes, explica o ambientalista que integra o proTejo – Movimento Pelo Tejo, mas não durante um período tão extenso. “Já não me lembro [de ver todo o leito coberto de água]. Talvez tenha sido no ano passado, em Novembro”, diz. Houve uma excepção: no dia em que a TSF emitiu uma peça a denunciar o baixo caudal do Tejo, a água chegou de repente, durante a tarde, obrigando Arlindo a fugir à pressa com uma equipa de televisão que se tinha deslocado a Ortiga. Mas foi só por umas horas. Depois, o rio voltou a sumir-se para o pequeno curso de água que tem sido.

Em Constância, Gonçalo Neves, 47 anos, usa um termo para explicar estas variações tão grandes do Tejo: “Sequestrado.” O que o empresário da área do lazer diz é: “Nós todos, como sociedade, é que somos o dono do rio e estamos a ficar com um rio sequestrado por estas empresas que tanto lançam o mesmo caudal de Inverno, com o rio com muitos metros cúbicos por segundo, como agora, que o rio vai muito curto, com muito pouca água.” Com várias barragens ao longo do seu curso, e o grande transvase Tejo-Segura, em Espanha, o rio não vive só ao sabor das chuvas. Longe disso.

Rodrigo Proença de Oliveira, especialista em Hidrologia, Recursos Hídricos e Alterações Climáticas e professor no Instituto Superior Técnico, explica o porquê de o caudal do Tejo poder variar tanto e tão rapidamente. “Se queremos garantir caudais em volume suficiente, é preciso armazenar em albufeiras. Isto tem sido feito ao longo dos anos e a capacidade de armazenamento tem vindo a crescer. O que existe é um regime de escoamento que é artificial e as águas são retidas para serem desviadas para vários usos. Em Espanha, muito para a agricultura. O que as alterações climáticas vêm trazer é um agravar desta assimetria de distribuição de águas entre períodos secos e húmidos.”

E essas alterações, no Sul da Europa, passam por chover menos e, quando chove, é em períodos mais concentrados, confirma o especialista. “Poucas pessoas têm noção de que chove mais em Lisboa do que em Londres. Só que em Londres, está sempre a chover. Quando a precipitação é distribuída, os caudais dos rios são distribuídos e não há necessidade de encher albufeiras”, diz.